A Censura
«Medo. O medo é preciso. Até que a terra seja o reino de deus: ainda estamos muito longe. por ora, este mundo é o reino do Diabo».
Bernardo Santareno, O Judeu, ato I.
Nos tempos do fascismo, uma peça para subir à cena tinha que passar por várias leituras. A primeira era feita por uma Comissão de Censura Teatral, que cortava a seu belo prazer os diálogos, ou, quadros menos recomendáveis. Durante o Governo Marcelista a censura modificou-se, passava agora a ser exercida por pessoas especializadas no assunto, e também se passou a exigir o Exame Prévio ao espetáculo. Deste modo, a censura, prejudicava a veia artística dos dramaturgos. Além de ser cada vez menor a percentagem de originais portugueses, que subiam à cena, reprimia-se a influência benéfica que podia resultar do contacto com autores, teóricos e encenadores estrangeiros.
"Durante quase meio século, entre 28 de Maio de 1926 e 25 de abril de 1974, uma censura tríplice - ideológica, económica e geográfica - reprimiu, condicionou e restringiu o desenvolvimento do teatro em Portugal, através dos seus órgãos repressivos, o poder fascista exercia a sua acção de controlo sobre os textos e espectáculos, interpondo-se uma autêntica barreira entre os trabalhadores (autores, actores, encenadores, técnicos) e o público, impedindo o acesso àqueles que considerava "subversivos", "perigosos" ou simplesmente suspeitos: era censura ideológica. por sua vez os empresários detentores dos monopólios de exploração teatral, seleccionavam os espectáculos que produziam em função da sua previsível rentabilidade, condicionando-os aos gostos e preferências do público burguês a cujo consumo se destinavam; aliás nem o tipo de espectáculos, nem o preço dos bilhetes proporcionavam o acesso do teatro das classes trabalhadoras, chamaremos económica a esta forma de censura (para simplificar, pois é evidente que a selecção assim operada procedia de uma nítida opção ideológica). Finalmente a concentração quase exclusiva da actividade teatral na capital do país a cerca de nove décimas da população a possibilidade de assistir a espectáculos teatrais (possibilidade teórica, já que na prática a reduziam a outros condicionamentos antes referidos): censura geográfica, portanto, estas três formas de censura completavam-se e articulavam-se entre si para atingir uma finalidade essencial: manter intactas as estruturas em que assentava o regime".
Luís Francisco Rebello, "Combate por um teatro de combate", Lisboa Seara Nova, 1977, p. 25.


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