Prólogo
Bernardo Santareno (1920-1980) sempre foi, tal como ele mesmo escreve "um homem em conflito social", "um homem que protesta". Um participante ativo na luta por uma melhor situação cultural do país. um homem preocupado com os grandes problemas que se colocavam ao artista enquanto produtor e homem empenhado.
A obra de Bernardo Santareno não se confina ao só ao drama, existe também a poesia e a prosa dos quais não iremos abordar neste momento.
O nosso ponto de partida foi aceitar este desafio: acompanhar a evolução ideológica e estética de um dramaturgo fecundo, ousado, em constante busca de si próprio e de uma comunicação com os outros, e que pela sua lucidez, criatividade, autenticidade e sentido de superação pessoal logrou marcar uma época do teatro português contemporâneo.
Bernardo Santareno inicia em 1957 a sua atividade como dramaturgo, com um volume que reunia três peças que eram o grito de uma liberdade raivosamente assumida, e por isso mesmo paga em sangue, a sua vigorosa personalidade e a sua obra. Oscilando entre polos de uma fascinação do mal e de uma obsessão de angelismo, o seu teatro realiza uma fusão de temas de raiz popular com preocupações existenciais mais fundadamente sentidas na carne e no espírito do homem contemporâneo.
"Nunca as minhas personagens, - diz-nos Bernardo Santareno - as minhas ideias, são criações limpas de sombra. Antes pelo contrário: toda a gente pode perceber nelas - por mais roupagens que eu lhes faça vestir - troços de raízes antigas, lagos de sangue vivo reflexos das luas sagradas (...) Nunca Apolo leva a melhor sobre Dionísio. E eu, é claro não posso interpretá-las com muita claridade: parece-me, no entanto, que a Joana ( do Crime da Aldeia Velha), como a maria do Mar (d'A Promessa), como a Irmã Natividade (d' A Excomungada), como a Amália (de António o Marinheiro), como o Paulo (de O Bailarino) ou o António Marinheiro, como a Manuela (de O Duelo) ou o João da Agonia, são individualidades telúricas empenhadas em rasgar o amálgama pastoso e indefinido; forças bravas, que o peso da sangue que lhes queima as carnes, ou uma nebulosa obsediante fome de absoluto, leva ao auto- esfacelamento de encontro às grades da prisão; fogachos, às vezes logo apagados, que nos deixam antever a esperança das relações humanas novas, mais harmoniosas e autênticas, mais perto da verdade biológica, psíquica e social do Homem (...)".


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